Sobre as intensidades dos processos e a importância deles

por Sophia Pinheiro

Um livro que tem como inspiração as relações entre as pessoas e o ambiente virtual, de frases como goles de café, não poderia ter chegado até mim de maneira mais verdadeira que não a rede social. Foi através de um desenho que compartilhei por minha página inicial no Facebook que Isabela – como incrível curadora – marcou Larissa, que viu o desenho, fez rs, comentou e compartilhou. A partir daí tivemos nossas primeiras conversas sobre o que então seria o livro.

Primeiro, começamos a pensá-lo para inscrição no Fundo de Arte e Cultura, fizemos alguns esboços das ilustrações, conversando sobre o traço que teriam, sobre como seria a linguagem gráfica e já sabíamos, deste então, que o livro seria todo em preto e branco. Quando o projeto foi aprovado, outra etapa desse processo começou.

Depois das escolhas finais dos textos, tivemos vários encontros à respeito das ilustrações em diálogo com os textos. Referências visuais, leituras subjetivas de cada parte do livro… Dialogamos muito sobre como os textos seriam imagens e em como as imagens seriam textos, sutilezas que transbordariam todo o sentido de cada página do livro. Assim como um dos textos sugere: “mais detalhes sobre os detalhes”…

Todo esse processo foi gestado pouco mais de um ano. Me vi arrebatada cada vez mais por cada palavra, cada “gesto mínimo” de “Faz rs”. Me vi imersa e já utilizava frases do livro – repetindo como mantras – em diversas situações da minha vida. Todo esse processo foi muito intenso e pleno pois como ilustradora, acompanhei de perto cada etapa do livro – gesto de muita generosidade tanto de Larissa quanto da Nega Lilu Editora. Me lancei então numa viagem: alguns dos textos deslizaram na mão como se sempre existissem, como se em todo esse processo gestacional, cada linha, cada ponto, já estivesse sendo criado virtualmente nas ideias e viessem à vida no simples contato entre a caneta e o papel.
Outros, já eram mais temperamentais. Demoraram a sair, foram refeitos, conversavam comigo.

Como estava imersa no livro e tive muita liberdade de criação, fiz cerca de 100 ilustrações e sabíamos que algumas não seriam utilizadas e que outras seriam ressignificadas pelo lindo trabalho de diagramação e editoração gráfica da Luana. Quando fui mostrar as ilustrações para Larissa, meu corpo arrepiava, estava presente, em verdade. Creio jamais ter sentido tanta felicidade, não eram apenas desenhos entregues para um trabalho: era parte de mim que também estava ali. Não esquecerei da nossa emoção a olharmos juntas os desenhos e da “piscininha nos olhos” de Larissa quando eles mergulharam nos olhos d’água, página-fluxo inicial do livro.

É preciso estar atento à cada ilustração, à cada traço e detalhe que se conectam pelas linhas imprecisas. Olhar e re-olhar cada imagem, cada forma, de diferentes ângulos: de lado, de cima, de baixo. Arrancar, partir, jogar fora, montar uma nova ilustração a partir do compartilhamento de uma página. Como gesto de criação conjunta (nossa e de cada leitorx) o livro-objeto Faz rs desvenda muitos segredos do que não está totalmente visível em cada imagem-palavra e imagem-desenho.

Para mim, Faz rs é isso, no duro: todas faz rs.
É um pedaço do/da outro/a que nos habita.

 

Sophia Pinheiro vive de políticas poéticas, como pensadora visual, trabalha para fomentar sua imaginação e libertar os monstros criativos. Faz de pouco, um tudo: ilustração, artes visuais, design gráfico, fotografia, arte e tecnologia, vídeoarte, antropologia e produção cultural em arte e design. Ela é a ilustradora do livro faz rs (Nega Lilu Editora), escrito por Larissa Mundim.

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